Entenda os fatores que influenciam na variação da cotação do dólar e como contingenciar cenários desfavoráveis de dólar em alta

Por Ana Laura Martins e Alexandre Serrano

Não é novidade para ninguém que fazer negócios no Brasil não é fácil. No entanto, atualmente, o empreendedor enfrenta não apenas os desafios característicos de nossos mercado e cultura, mas também a forte influência de fatores externos sobre a economia brasileira.

Entre as diferentes variáveis que atuam sobre nosso ambiente econômico, escolhemos discutir neste artigo o câmbio.

Câmbio flutuante: Como funciona a dinâmica de preços do dólar no Brasil?

A política cambial brasileira, ou seja, o conjunto de medidas que define e regulamenta as taxas de câmbio do país, desde 1999 é do tipo flutuante. Nesse regime, não há interferência direta do Banco Central na determinação da taxa de câmbio (apesar de não ser incomum algum nível de atuação do mesmo em casos de extrema valorização ou desvalorização, utilizando para isso suas reservas). Desta forma, as taxas cambiais derivam das condições do mercado, flutuando livremente conforme alteram-se a oferta e procura pelas moedas estrangeiras na economia brasileira.

Essa política não se aplica apenas ao dólar, embora essa moeda seja a principal analisada, e, por isso, entende-se que o valor do câmbio no Brasil nada mais significa do que o preço das moedas estrangeiras em relação ao real. Em outras palavras, o preço do Dólar, Euro e demais moedas do mundo frente ao Real será definido pelo movimento da oferta e da demanda.

Fatores que influenciam na variação da cotação do dólar

Essa flutuação do valor do câmbio sofre influência de diversas áreas da socioeconomia mundial. Nesse sentido, as causas das oscilações do dólar são diversas, mas muitas delas convergem no fluxo de investimentos externos. Quando o país se torna atrativo para o investimento externo (que é realizado, de maneira padrão, em dólares), nossa moeda tende a se fortalecer, pois como os ativos no Brasil são em real, para se investir aqui deve-se trocar dólares por reais. Em vista disso, aumenta-se a procura por reais e a oferta de dólares na economia brasileira, fazendo com que a moeda nacional sofra valorização.

O contrário também é verdadeiro. Quando o país não se encontra em contextos favoráveis para chegada de investimento externo, como em cenários de conflitos políticos, incertezas econômicas, alta inflação, tensões internas e externas etc., a oferta de dólar diminui e, com isso, seu valor frente ao Real aumenta.

Para entendermos melhor essa influência, vamos dividir os fatores em internos, quando referentes à contextos nacionais, e externos, quando tratamos de cenário internacional.

Assim, como alguns exemplos de fatores internos que levam a flutuação do preço do câmbio, temos:

  • Metas fiscais – A meta fiscal consiste na demonstração, pelo governo, da diferença entre a expectativa do valor que pretende arrecadar e o total de despesas previstas em um ano. Quando o governo não consegue cumprir com a sua meta, a confiança no governo e na economia tendem a cair, desviando a atenção dos investidores do nosso mercado.
  • Comportamento econômico do governo – A forma como o governo responde frente aos desafios e crises econômicas é um importante fator a ser analisado. Mudanças abruptas nas políticas econômicas, descontroles em orçamentos e contas públicas ou falta de clareza das intenções e estratégias futuras, por exemplo, podem causar incertezas e aumentar a percepção de risco, desvalorizando a moeda nacional.
  • Inflação – A inflação, que representa a perda do poder de compra da população, por si só já representa uma consequência da desvalorização da moeda nacional. Porém, ela ainda pode agravar o aumento do câmbio, pois sua presença tende a instigar investidores no Brasil a buscar a moeda norte-americana como forma de proteção do seu capital. Essa demanda aumentada, paralela à baixa oferta da moeda, contribui para uma elevação ainda maior do seu preço no território brasileiro.

Passando, agora, para exemplos de fatores externos que contribuem para essa volatilidade cambial, temos:

  • Taxas de juros nos Estados Unidos – O aumento das taxas de juros nos EUA pelo governo estado-unidense é um atrativo para investidores internacionais. Em vista disso, é comum haver uma fuga de capital de outros países para os Estados Unidos, como do Brasil, de modo a valorizar o dólar frente às demais moedas, como o real.
  • Outros países aumentando sua atração para investimento – De maneira muito similar, o direcionamento dos investimentos para outras nações é acompanhado de saída de dólar da economia brasileira, levando à desvalorização da nossa moeda e o aumento da cotação do dólar.

Medidas de gestão para conter os efeitos negativos da alta do dólar no seu negócio

Apesar de parecer distante ao empreendedor, principalmente aquele que conduz um pequeno ou médio negócio local, a volatilidade do dólar causa importante impacto no dia a dia do cidadão brasileiro. A inflação a curto prazo é um dos principais exemplos disso. Se o dólar sobe, produtos e insumos que são importados tendem a encarecer. Esse aumento é repassado de alguma forma para o preço do produto derivado das importações, seja direta ou indiretamente, e, com isso, forma-se uma cascata impactando, também, preços de produtos destinados aos mercados nacional e exterior.

Em vista disso, momentos de flutuação cambial são delicados para a economia brasileira, e implicam na necessidade de princípios de gestão adequados para que as empresas reduzam os efeitos negativos da alta do dólar no seu negócio. Alguns destes mecanismos são:

  • Avaliação do panorama geral – O primeiro passo para gerir um contexto desfavorável de alta do dólar é avaliar a conjuntura – aspectos externos e internos do negócio, em busca de um diagnóstico da atual situação financeira da empresa. Nesse sentido, tendo em vista que o dólar pode continuar flutuando, essa análise não deve considerar apenas o caixa disponível, mas, principalmente, as previsões de saídas futuras do fluxo de caixa da empresa. Nesse momento, avaliar a base de fornecedores, os contratos e entender suas estruturas de custos também é importante para poder identificar quais representam maior risco de repasse pelo aumento dos custos de importação.
  • Planejamento estratégico – A partir do diagnóstico da situação financeira real da empresa no momento e no futuro, considerando a manutenção do contexto desfavorável, elaborar um planejamento estratégico direcionado para a situação é imprescindível. Os impactos negativos devem ser previstos e provisionados, a fim de se evitar um efeito dominó no seu negócio. Faça constantemente pesquisas de mercado/preço com seus fornecedores e busque oportunidades de negócio que diminuam seus custos, como a antecipação de estoques (quando possível) ou outras proteções contratuais.
  • Negociações – Esse é um momento oportuno para negociar com seus fornecedores. Porém, para que isso seja possível em momentos de crise como esse, um bom relacionamento/ reputação deve ter sido construído ao longo do tempo. O ideal é buscar condições equilibradas com seus fornecedores, especialmente com aqueles que repassarão o aumento dos preços para seu negócio – como por exemplo a compensação com o alongamento de prazos.
  • Redução de custos – Apesar das dificuldades, momentos de crise também podem servir de aprendizado. Contextos financeiros desfavoráveis são uma oportunidade para avaliar as atividades realizadas no negócio e investir na redução dos custos e otimização de processos. Os procedimentos de trabalho devem tornar-se mais eficientes para, pelo menos, manter o seu nível de produção normal gastando menos recursos. Para isso, podem ser usados relatórios de desempenho e custo dos setores e/ou processos específicos da empresa, a fim de diagnosticar o que tem apresentado menor eficiência e, por consequência, consumido mais capital do que o necessário.

De fato, a alta do dólar é acompanhada de instabilidade política e econômica, e muitas empresas decidem encerrar suas atividades porque simplesmente não conseguem mais se manter no mercado. Mas para que isso não aconteça com seu negócio, invista na contenção de danos o mais rapidamente possível, com um diagnóstico preciso do seu cenário, adequando o seu planejamento estratégico a fim de torná-lo específico para o enfrentamento dessa situação, e adapte o seu negócio à nova realidade, buscando inovações com a sua equipe. Cabe ao gestor/empreendedor do negócio aprender a minimizar os efeitos negativos e encontrar oportunidades de crescimento e melhoria nesses momentos mais conturbados.


Gostou deste artigo? Envie uma mensagem para nós com a sua opinião, sugestão ou dúvida.

Fale Conosco!