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Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Os impactos da política econômica do governo Trump às exportações brasileiras não se limitam ao grupo de produtos que tiveram suas vendas aos EUA sobretaxadas. Além do tarifaço de 50%, a desvalorização do dólar e a redução dos preços médios de embarque – para a qual contribui a incerteza provocada pela estratégia comercial do presidente americano – têm levado a uma redução da margem de lucro das exportações, que até o final do ano poderá ser nula ou ligeiramente negativa, afirma Daiane do Santos, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). “Se tudo se mantiver como está, teremos um horizonte desafiador para os exportadores brasileiros”, afirma. 

De acordo com o índice calculado pela Funcex, no acumulado do ano até agosto a rentabilidade das exportações brasileiras teve alta de 0,9% quando comparada com o mesmo período de 2024, mas em tendência de queda. Somente em agosto, o índice registrou queda de 7,7% em relação a agosto de 2024.     

O índice da Funcex avalia três componentes: a variação do real frente ao dólar, o preço médio das exportações e o custo de produção de cada produto. No caso da evolução do câmbio nominal, a valorização do real é igual para todos os 29 produtos analisados, mas tende a afetar mais aqueles segmentos cuja competitividade internacional depende de uma moeda doméstica fraca. “O ideal sempre é que essa competitividade não dependa do câmbio, mas em determinados segmentos sabemos que não é assim”, diz Santos, citando aqueles que possuem custos de produção maiores do que seus pares internacionais. Nesse quesito, embora os exportadores que usem insumos importados possam se beneficiar de um dólar “mais barato”, no agregado o índice da Funcex mostra um significativo aumento de custo puxado por salários, fruto de uma atividade aquecida, e serviços – neste caso, representado especialmente pelo frete, que por sua vez é influenciado pelo preço dos combustíveis. As maiores altas de custos nos primeiros oito meses do ano foram registradas em produtos de fumo (9,1%), produtos alimentícios e bebidas (ambos com 8,6%).

Variação do índice de rentabilidade das exportações


Fonte: Funcex.

Outro grupo de exportações que também registrou alta de custos acima da média foi o segmento de outros equipamentos de transporte, exceto veículos automotores – grupo onde estão os aviões da Embraer, de fora do tarifaço –, com 7%. Este, entretanto, foi um dos poucos que apresentou aumento do preço médio de exportações, com alta de 4,9% de janeiro a agosto. De 29 produtos, apenas 9 tiveram alta no período analisado, sendo a maior em produtos de informática, eletrônicos e ópticos (8,7%) – “pouco relevante na pauta brasileira”, destaca Santos – e metalurgia, com alta de 6%. “A rentabilidade das exportações de metalurgia foi extraordinária em relação às demais. Além do aumento do preço médio dos embarques, seu aumento de custo foi abaixo da média, com 4% no período, para o qual colaborou a queda de preço dos insumos importados”, afirma a economista.

Santos lembra que, quando se trata de preços de exportação, há uma diferença importante entre a dinâmica de commodities – que tem sua dinâmica dada pelos preços internacionais – em relação a outros tradables. “No caso dos produtos agropecuários, por exemplo, de janeiro a agosto houve uma dinâmica positiva para a rentabilidade, com o índice de preços de embarque variando positivamente, com alta de 2,5%, compensando um aumento de custo acima da média, de 6,3%”, compara.

Setores com maior queda de rentabilidade de jan-ago/25 ante jan-ago/24 (em %)


Fonte: Funcex.

Agropecuária, aviões, produtos de informática e de metalurgia fazem parte do grupo que Santos classifica como resiliente. Na outra ponta, há os setores que estão na zona de alerta, com as maiores rentabilidades negativas de janeiro a agosto. Estão nesse grupo a extração de minerais metálicos, com queda de rentabilidade de 10% em relação ao mesmo período de 2024; papel e celulose (-9,7%) e pesca e aquicultura (-8,7%). Todos estes tiveram queda no preço das exportações de dois dígitos. Derivados do petróleo e biocombustíveis também entra nessa lista, com queda de 4,9% na rentabilidade, e de 9,7% no índice de preço das exportações.

“O que vemos no curto prazo é a manutenção dessa tendência desvantajosa para os exportadores”, diz a economista da Funcex, destacando estimativas para a inflação que incendem sobre os custos, além da expectativa de um real mais forte diante de fatores como a tendência de política monetária nos EUA e no Brasil. “Além de uma balança comercial positiva, que beneficia a entrada de dólares, temos o investimento puxado pelo diferencial de juros do Brasil, tornando nossa economia entre as mais atraentes para atração desse fluxo estrangeiro”, diz. Nessa equação, ela também soma a previsão de mercado para queda nos preços de várias commodities como soja, trigo e cobre. “Com isso, não esperamos nenhuma reação forte quanto ao índice de preços”, diz.

Quanto à tendência de um dólar mais fraco por mais tempo, fruto da política econômica do governo do presidente Donald Trump que ainda congrega ameaças tarifárias tempestivas, Santos não vê no horizonte expectativas de reversão. “Não temos visto recuos significativos”, diz. Nesse caso, a agenda brasileira, defende, deve ser a de ampliação da promoção comercial. “Precisamos de uma política de estreitamento de relações com outros mercados. Não é uma agenda de curto prazo, mas demanda um avanço consistente no tempo. A agenda de internacionalização das empresas não é simples – tratamos dela na Funcex. Portanto, reforçar políticas que impulsionem essa internacionalização será muito positivo” conclui.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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