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Por Hugo Carcci*

Brasil avançou no ranking mundial de competitividade digital divulgado pelo IMD World Competitiveness Center, em parceria com a Fundação Dom Cabral, mas segue entre os países com menor capacidade de incorporar tecnologias digitais de forma ampla e eficiente. O levantamento, que avaliou 69 economias com base em mais de 60 indicadores ligados a tecnologia, conhecimento e prontidão para o futuro, mostra que o País subiu cinco posições em relação a 2024, passando do 58º para o 53º lugar, avanço concentrado sobretudo nos pilares de tecnologia e preparação para os próximos anos.

Para analisar o desempenho brasileiro, o professor Ildeberto Rodello, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, aponta limitações estruturais que mantêm o País em posição desfavorável no cenário global. Segundo ele, o Brasil ainda enfrenta restrições em capital humano, infraestrutura e ambiente de negócios. “Mesmo com algum avanço no ranking em relação à edição anterior, esses entraves reduzem a capacidade do País de incorporar tecnologias digitais em larga escala e de competir com economias que investem de forma mais consistente e estratégica.” Ele destaca deficiências na educação básica e superior, sobretudo nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, além da baixa difusão de competências digitais. “Isso gera escassez de profissionais qualificados, especialmente para áreas ligadas à indústria 4.0, e limita a velocidade da transformação digital nas empresas e no setor público.”

O professor também aponta desigualdades na infraestrutura digital. Segundo ele, enquanto grandes centros contam com banda larga e serviços avançados, regiões periféricas enfrentam acesso limitado e custos elevados. “Essa assimetria prejudica a digitalização de escolas, pequenas e médias empresas e serviços públicos fora dos grandes polos.” Na área de inovação, Rodello observa que o País tem produção científica relevante, mas baixa capacidade de transformar pesquisa em patentes, produtos e ganhos de produtividade. “A cooperação entre universidades e empresas ainda é limitada, e o ecossistema de startups enfrenta dificuldades de financiamento e escala.”

Apesar da colocação ainda modesta, o Brasil avançou no ranking em relação ao ano anterior. Para Rodello, esse resultado reflete progressos pontuais, especialmente em áreas de maior produtividade científica. “O Brasil tem alcançado destaque nas publicações acadêmicas de qualidade, amadurecimento de ecossistemas de startups e aumento de investimentos em inteligência artificial para setores estratégicos, como saúde, finanças e educação”, explica. “São avanços importantes, mas que ainda têm margem para crescer”, conclui.

Tecnologia, inovação e desenvolvimento de longo prazo

Segundo o docente, o fortalecimento dos setores de tecnologia e inovação é central para o desenvolvimento econômico no Brasil e em qualquer país. “Em uma economia cada vez mais digital e baseada no conhecimento, os países que investem em inovação conseguem acelerar um crescimento sustentável e diversificar sua matriz produtiva.” O professor destaca ainda que a inovação estimula o surgimento de novos produtos, serviços e modelos de negócio, além de tornar os processos mais eficientes. “Isso facilita a inserção nas cadeias globais, atrai investimentos estrangeiros e amplia a capacidade das empresas.” Segundo ele, o avanço tecnológico também contribui para enfrentar desafios sociais e ambientais, reforçando seu papel estratégico no desenvolvimento de longo prazo.

Rodello avalia que as perspectivas para o Brasil nos próximos anos são positivas, mas condicionadas à superação de desafios estruturais e políticos. Segundo ele, o avanço em tecnologia e inovação exige políticas mais consistentes e investimentos mais bem direcionados. “O País já conta com iniciativas importantes, como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê aportes relevantes até 2028”, explica. “Também, com a ampliação dos investimentos privados, esses fatores apontam para um caminho de crescimento gradual e sustentável da digitalização da economia”, analisa.

Por fim, ele diz que ampliar a capacitação de talentos é um passo central para o avanço do País “Também é fundamental fortalecer a cooperação entre universidades e o setor produtivo, melhorar a infraestrutura de conectividade, sobretudo fora dos grandes polos, e simplificar o ambiente regulatório e tributário para fomentar a inovação com segurança jurídica”, afirma. Segundo o professor, se essas condições forem atendidas, o Brasil tem potencial para ampliar seu protagonismo primeiro em nível regional e, posteriormente, no cenário global.

*Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares

Publicado em: https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/brasil-avanca-em-competitividade-digital-mas-segue-distante-das-economias-lideres


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